Marina Marcondes Machado

É PROIBIDO IMAGINAR

12 de maio de 2012 1 Comentário
Por agachamento

Sobre formas e nuvens

Chegando para trabalhar no Piá, Projeto de Iniciação Artística da cidade de São Paulo, no CEU Jardim Paulistano, ouço o seguinte diálogo entre dois amigos que andavam pela ladeira como eu:

Garoto: Não posso muito ficar olhando pro céu, senão eu imagino coisas nas nuvens…

Nuvem

"Imagina, Imagina, Hoje à noite, A gente se perder" (Chico Buarque)

Amigo: !?

Garoto: Olha, por exemplo, você não vê ali……..

O garoto e seu amigo deviam ter entre 8 e 10 anos de idade. Fiquei muito envolvida nesse “interdito de olhar e imaginar”! E fez muito sentido para mim, ao pensar sobre as dificuldades que estou tendo para ensinar teatro na Brasilândia: teatro não-realista, teatro no vazio, por assim dizer: teatro contemporâneo, teatro imaginativo.

Todas as crianças com as quais fiz contato até agora, entre 5 e 10 anos, estão num estado muito pouco imaginativo. E então pensei: se “a norma” é não imaginar…! Se imaginar é algo que não deve acontecer…! Então realmente aulas de arte nesta chave é, do ponto de vista da criança, difícil de fazer e até mesmo enfrentar.

Uma leitura mais rasa pode ser de que se trata de um “choque cultural”, mas, como somos adultos e estamos numa posição de artistas educadores, formadores da iniciação artística das crianças, precisamos ir além do rótulo sociológico.

Ir além é conseguir preparar aulas apetitosas, onde olhar para nuvens e “enxergar coisas” é tudo de bom, no entanto proposto de tal maneira que não ameace a cultura local. Conversar sobre isso, sobre o dom de imaginar e fantasiar, e “autorizar” – talvez não “autorizar”, mas antes, permitir, catalizar, veicular, fornecer o cavalo para que surjam imaginações! Novas imagens, e diferentes desdobramentos do imaginário já dado, já posto, já vivido.

Pela minha experiência como formadora de professores da Educação Infantil, já tinha uma intuição sobre como os educadores acham que imaginar é algo ruim: algo que “tira a criança da realidade”, algo que pode incentivar mentiras ou devaneios que levam a criança para “outro lugar” que não a sala de aula estrito senso, lugar onde o professor quer que a criança se fixe. Também aqueles que misturam sua religião e profissão acham que imaginar leva a “coisas ruins”. É pena, e experieenciei, nas formações de professores, como é difícil retornar ao campo ficcional do faz de conta, por exemplo, depois que se cresce naquela lógica.

Imaginar, em sua positividade, é o que nos move aquém e além da vida ordinária, e é o que nos permite inúmeras formas de prazer na mesma vida ordinária! Imaginar é também uma capacidade humana irmã da memória e da subjetividade. Imaginamos o encontro com um amigo querido, imaginamos a felicidade de ganhar um presente de aniversário, imaginamos como seria o mundo sem nossa mãe por perto, ou com nossa mãe ressuscitada!; imaginamos que nossas ações poderiam ser diferentes; e se o mundo nos suportasse melhor?

Enfim, minha bandeira como artista professora será a bandeira invisível do teatro imaginativo, e meu mastro precisa ser a concretização de ações ricas em teatralidade: de modo que as crianças queiram muito imaginar a aula seguinte, para que, pela continuidade dos encontros, descubram todos os espaços possíveis que por aí estão, nas nuvens, para serem encontrados.

 

 

 

 

Me sinto Dom Quixote, Moinho e Dulcinea

Ser ou não ser Dom Quixote de la Mancha

Em março de 2012, estive na defesa de doutorado de Eugênio Tadeu, pesquisador da UFMG orientado na ECA-USP pela profa. Maria Lucia Pupo. Sua tese tematizou as interfaces entre música e teatro. Ouvi do prof. Maurílio, que estava na banca, um dizer muito interessante, de que podemos definir o que é música da seguinte maneira:

Música é aquilo que quem faz chama de música, e quem escuta também.

Naquele momento pensei, de imediato: poderíamos transpor essa frase para todas as outras linguagens artísticas, e para “arte” em geral?

E se pudéssemos, diríamos:

Teatro é aquilo que quem faz chama de teatro, e quem assiste também.

Este modo de definir o que é música ou teatro ou arte me parece extremamente democrático, algo que, de modo bem sutil-gentil, questiona padrões dos mais diferentes naipes: das curadorias, comissões, educativos e crítica! Não acham?

Na minha vida cotidiana hoje, no Piá (Programa de Iniciação Artística) onde conduzo aulas de teatro para crianças de 5 a 13 anos, aquela frase pode tornar-se um elemento norteador para a convivência entre artistas e crianças. Pois as crianças, com muito pouco repertório em teatro ou dança, estão com dificuldade para reconhecer nossas aulas (somos quatro artistas professoras) como “aula”… quanto mais de teatro ou dança!

Exemplifico: na sala ao lado da nossa temos uma professora de “balé” com 40 crianças em uma grande roda que irão aprender passos, ritmos e quiçá uma coreografia; esta professora não faz parte da equipe do projeto Piá, ela está contratada para ser responsável por algumas atividades do “contraturno” do CEU Jardim Paulistano (Brasilândia, SP). Enquanto isso na nossa sala as crianças brincam e se esticam, vão ao chão e dão pulos, fazem estátuas com seus corpos e são convidadas a inventar com o corpo. Quem está “certo” e quem está “errado” neste sistema de atividades extra-curriculares? Quem cativa e conquista as crianças para compreender as possibilidades da iniciação em arte? E quais seriam as reais necessidades e desejos das crianças da Brasilândia?

Dom Quixote por Pablo Picasso

Picasso desenhou "como uma criança" Dom Quixote e Sancho Pança

Percebo que as primeiras semanas de um projeto que quer trazer arte e arte contemporânea para uma comunidade precisa passar por uma fase de “diagnóstico”. Não podemos querer implementar, a qualquer custo, nossa visão de arte e de infância. Se insistirmos nisso seremos patéticos, nos tornaremos uma espécie de bobos da corte que apenas brincam com os paradoxos e as contradições institucionais e da cultura de massa. Precisaremos chegar a um pensamento e ação críticos para questionar os paradoxos – mas obviamente permaneceremos longe de solucioná-los – em nome das crianças, da ampliação de suas referências sobre arte, da possibilidade de uma política pública que questiona o senso comum e o mainstream do que é arte para crianças.

Vestidos de bobos da corte ou de Dom Quixote na direção de nossos moinhos, nossa batalha no vento como artistas educadores me parece ser em nome de uma infância menos entregue aos caprichos adultos das apresentações para pais e dos concursos no estilo Raul Gil: busca de uma infância mais próxima de poder habitar seu próprio corpo de criança e sua cotidianeidade, no caldo de uma tranquilidade ordinária, no passar dos dias: sem plumas nem lantejolas, sem ensaios exaustivos nem agendas pré-estabelecidas; com folhas, cubinhos de madeira e brincadeiras.  Seria isso possível?

 

Por que estou aqui?

29 de abril de 2012 1 Comentário
Por agachamento

Depois de duas semanas de aulas no Piá, Programa de Iniciação Artística criado e mantido pela Secretaria de Cultura do Município de São Paulo, já posso comentar algo sobre experiências vividas ali.

Disse um menino de cerca de cinco anos para sua professora, em uma das primeiras aulas:

Não vi teatro nenhum aqui… nem dança.

Ele retrucava uma pequena chamada de atenção da professora, que afirmou que não estavam ali para “qualquer coisa”, mas antes, para “aulas de teatro, dança…”; a professora procurava dar um significado para o que estava acontecendo na rotina alterada das crianças, que uma vez por semana terão uma dupla de professores propondo experiências de iniciação artística, e isso começou em suas vidas em pleno mês de abril.

Achei a frase do menino pertinente, interessante, inteligente, e gerou em nós reflexão e dúvida: pessoas envolvidas em grupos, coletivos, pesquisas de mestrado, bem como de ‘poéticas pessoais’, possuem sua própria visão de arte – visão que, em inúmeros casos, não é a visão do equipamento onde estão trabalhando, nem da comunidade dos pais, nem das crianças!

O que fazer?

(Deveríamos nos moldar, nos modelar para sermos compreendidos numa língua pré-existente?)

Quantas crianças dos grupos que ensinamos dança e teatro, artes visuais e música foram ao teatro, ao cinema, a apresentações contemporâneas de dança ou eventos de rua? Como nos comunicar com um grupo cuja experiência em artes visuais, por exemplo, é dada pelo limite do papel sulfite e um corpo sentado na carteira para desenhar? Para eles, as palavras “Exposição” e “Bienal” fazem sentido? Que tipo de música ouvem em casa? E assim por diante.

Tenho pensado bastante sobre isso: como gerar um ambiente criativo e poroso a diferentes visões de arte, em um caldo geral onde a visão de arte seria “dada”. Será preciso uma observação mais apurada, ao longo das semanas, para dizer qual visão de arte que as crianças possuem e veiculam, mas percebemos que, em um momento que envolveria criação das crianças, elas esperam o modelo, bem como o que “é certo” fazer. Com papéis, as crianças não queriam brincar de amassar e dar formas múltiplas: querem tesoura e cola, querem barquinho de dobradura, querem um resultado que não se desmanche…

…e seus professores esperavam: plasticidade, processo, invenção!

Imagem de teatro de bonecos na internet

qual tipo de teatro de bonecos as crianças já´viram?

Qual a via de acesso para a comunicação destes mundos entre si?

Certamente o adulto tem um papel importantíssimo. Papel que precisa ser investigado, nomeado, burilado. Trazer algo próprio da primeira infância que as crianças parecem ter guardado no sótão ou no porão – a capacidade de brincar e imaginar – é o primeiro enigma a ser desvendado pelos adultos condutores da iniciação em outro tipo de arte. (Qual mesmo?)

 

 

Experiências em teatralidade: se ensina?

15 de abril de 2012 Deixe um comentário
Por agachamento

Vou criar, em abril e maio, algumas postagens comentando como penso as “aulas de teatro” hoje em dia, a partir das noções divulgadas na postagem anterior, que procurou desenhar e brincar com a noção de Abordagem em Espiral. Ali no texto, digo ao professor de arte que arrisque e chegue mais perto das outras linguagens; que não se restrinja à sua “de origem”, por vezes delimitada com moldura, portanto já pronta demais. Ali no texto, digo que a “aula de teatro” pode ser revista: vou tentar, nas postagens, criar aulas que possam ser nomeadas “Experiências em teatralidade”.

Parece ingênuo achar que mudar os termos, os títulos, os verbetes, muda o mundo… mas acredito que podemos partir de um caminho pequeno e sutil de mudança, cujos motes são gesto e palavra.

O gesto: na direção da experiência do outro, e não baseado na minha, que “sei teatro”; a palavra: procura de diálogo e compreensão do universo teatral já dado, compartilhado no mundo, entre-alunos, com os alunos; assim, pela condução verbal, introduziremos – permanecendo, sempre, na sintonia de educador e de estudioso de teatro – princípios novos ou inusitados, desconhecidos e também muitas vezes não reconhecidos como “teatro”. Vejo um impasse atual na discussão sobre arte e teatro contemporâneo e sua divulgação, disseminação, no abismo entre o que se pratica e o que se ensina no âmbito curricular, entre processos criativos e encenações de final de ano, entre trabalhos em processo e resultados fechados, a serem ensaiados e assistidos por familiares em poltronas.

Precisamos nos debruçar sobre os modos de “ensinar” a cena contemporânea, sem arrogância, sem distinção de nível, intelectual ou etário. Ensinar entre haspas porque o princípio contemporâneo é parte da vida cotidiana, alimenta-se nas coisas banais, gestos, fatos e ‘causos’ ordinários… e a teatralidade está no mundo e em nós, nas relações humanas, diariamente/noturnamente.

Portanto não é necessário escolher em primeiro plano o verbo ensinar: preciso apontar, preciso reafirmar, preciso propor práticas compartilhadas de tudo que pode significar teatralidade e artisticidade.

Desenho Sarubbi / foto Juan Esteves

a teatralidade é canoa para travessia

Que “tudo” é esse?

É um tudo que diz respeito ao aluno de teatro, aquele que veio e se dispos, que demonstra desejo de saber algo sobre isso, que se mostra alguém que gosta de pensar personagens, histórias, cenas, quadros… Enfim, sabemos que usualmente quem nos chega tem muito provavelmente uma noção de arte teatral representacional, e tem também fome de palco, e está extremamente influenciado pelos modos de atuar da televisão… e talvez um pouco do cinema. É um tudo que diz respeito às pessoas e seus modos de vida. Teatralidade é biografia e auto-biografia, o tempo todo.

Como fazer para trabalhar assim?, parece ser a pergunta que não quer calar dos leitores do Agachamento.

Comentando meu trabalho no PIÁ, Programa de Iniciação Artística instaurado na cidade de São Paulo pela Secretaria Municipal de Cultura, projeto no qual ingressei em 2012, pretendo esboçar uma resposta, compartilhada com o leitor do blog. Me aguardem!

 

 

Para pensar currículo e arte

6 de abril de 2012 Deixe um comentário
Por agachamento

Convido a todos a acessar e conhecer a Revista Científica e-curriculum, do Programa de Pós-graduação em Educação: Currículo da PUC-SP. Acaba de sair um novo número, ali vocês encontrarão um artigo meu, desdobramento da postagem Abordagem Espiral para experienciar arte e educação .

Como na canção do Caetano, tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo crescendo… Comecei a falar sobre uma possível abordagem em espiral de modo brincante, para, com humor, comentar a Abordagem Triangular no ensino da arte, tão difundida entre nós, mas hoje pouco discutida, transformada ou debatida entre jovens educadores. Eles chegam no mundo profissional e “já é assim” – já se ensina com base naquele tripé do fazer artístico, da apreciação da obra e sua contextualização histórica, e, muitas vezes, trabalha-se mecanica ou obrigatoriamente o fazer, o saber pensar sobre o que se faz e o conhecimento em História da Arte.

Quem não é tão jovem sabe que este “tripé” surgiu para estruturar uma área de conhecimento que, nos anos 1970, encontrava-se insípida, baseada no “sentimento”, impressões e expressões, atitude que revelava uma visão de arte romantizada, para muitos pouco política. Foi uma espécie de conscientização de uma classe de profissionais bem como o surgimento dos cursos universitários para arte-educadores, e isso é História do Currículo no Brasil. A disciplina de arte existe como disciplina obrigatória no Brasil apenas desde 1971.

Gravura de Valdir Sarubbi

deixar surgir antiestruturas para criar novos mundos

Meu artigo, intitulado Fazer surgir antiestruturas: abordagem em espiral para pensar um currículo em arte, procura fazer reflexão sobre o uso do tripé fazer/pensar/historicizar, especialmente por parte dos educadores da primeira infância. Gosto de dizer que podemos armar nossas barracas com outros tripés, outros três pilares, outras estruturas possíveis: por exemplo, o tripé de Gaston Bachelard, memória/imaginação/poesia. Assim reafirmo o caminho das poéticas próprias: seja dos educadores, seja de seus educandos; seja dentro, seja fora da cultura escolar. Também gosto de remeter as pessoas à famosa frase que virou título de livro: Tudo que é sólido se desmancha no ar. Está na hora de rever, revisitar, discutir, reconstruir o currículo em arte! Muitos reclamam, ironizam, e ignoram esta necessidade. Eu mesma agi assim na década de 1990 na Escola Municipal de Iniciação Artística de São Paulo (EMIA, onde trabalhei por quase 20 anos). Mas compreendi, ao longo do tempo, como o currículo é um discurso de poder da comunidade adulta e como ele precisa levar em conta as culturas da infância, de modo a democratizar-se,  desengessar e rever o papel do adulto artista educador, trabalhando novamente com a pergunta: Quem educa quem?

 

Apresentar-se ou presentificar-se?

31 de março de 2012 1 Comentário
Por agachamento

Este é um menino de dois anos, chamado William, que convive com dançarinos e aulas de dança, no Studie 43, Dinamarca. Quero fazer um contraponto à última postagem, onde uma menina está com os adultos numa aula de Contato e Improvisação na Espanha. Neste vídeo e no subsequente abaixo, William está “se apresentando”. Notem as diferenças.

A questão gira em torno da atitude dos adultos, de como eles recebem a corporalidade da criança, como filmam, como percebem este dom do gesto espontâneo… O video feito em Ibiza não tem música; os dois vídeos dinamarqueses tem música alta e palmas e uivos adultos acompanhando o pequeno dançarino. (Dizem os especialistas em dança que a dança espontânea é aquela que não se utliza de fundo musical).

É meu ponto de vista que a postagem anterior revela os princípios do que estou costumando chamar de performatividade da criança pequena (a criança como performer). Aqui o garoto está noutra posição: está apresentando-se a uma platéia adulta e uivante. Trata-se de outra chave relacional. Eu diria que a menina na Espanha está presentificando, ou seja, tornando presente em seu corpo algo que vive no contato com os adultos e com a cultura adulta; o garoto na Dinamarca está se apresentando aos dois anos de idade, de forma magnífica.

Não quero chegar a “quem está certo” ou “quem está errado”; quero chegar a um pensamento sobre as estéticas possíveis para apresentar crianças pequenas ao mundo compartilhado do fazer artístico. São escolhas, olhares, vieses: pontos de vista. O meu tende a gostar demais da menina que ri com chupeta na boca, e a temer o pequeno William e as possibilidades de sua incrível habilidade corporal e de leitura do mundo adulto coreografado ter como desdobramento shows, competições, aulas e formações, levando sua infância a uma visiblidade precoce. Esse filme já vimos com as pequenas celebridades mundiais e seus destinos na juventude e idade adulta…

…no entanto não quero me tornar uma “ombudswoman” da primeira infância! Este site-blog conversa com o mundo, não o regula nem cria leis e paradigmas relacionais. Penso apenas que a comunidade adulta deve, sempre, ser capaz de fazer reflexão sobre o uso do YouTube, bem como sobre a entrega de seus filhos à mundaneidade: relação criança-mundo. Relação fundamental, fundante, e que nos deixará fortes marcas – em quem somos, quem fomos, de onde viemos e para onde vamos. Vejam agora outra apresentação de William, naquela mesma noite:

 

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