Sobre formas e nuvens
Chegando para trabalhar no Piá, Projeto de Iniciação Artística da cidade de São Paulo, no CEU Jardim Paulistano, ouço o seguinte diálogo entre dois amigos que andavam pela ladeira como eu:
Garoto: Não posso muito ficar olhando pro céu, senão eu imagino coisas nas nuvens…
Amigo: !?
Garoto: Olha, por exemplo, você não vê ali……..
O garoto e seu amigo deviam ter entre 8 e 10 anos de idade. Fiquei muito envolvida nesse “interdito de olhar e imaginar”! E fez muito sentido para mim, ao pensar sobre as dificuldades que estou tendo para ensinar teatro na Brasilândia: teatro não-realista, teatro no vazio, por assim dizer: teatro contemporâneo, teatro imaginativo.
Todas as crianças com as quais fiz contato até agora, entre 5 e 10 anos, estão num estado muito pouco imaginativo. E então pensei: se “a norma” é não imaginar…! Se imaginar é algo que não deve acontecer…! Então realmente aulas de arte nesta chave é, do ponto de vista da criança, difícil de fazer e até mesmo enfrentar.
Uma leitura mais rasa pode ser de que se trata de um “choque cultural”, mas, como somos adultos e estamos numa posição de artistas educadores, formadores da iniciação artística das crianças, precisamos ir além do rótulo sociológico.
Ir além é conseguir preparar aulas apetitosas, onde olhar para nuvens e “enxergar coisas” é tudo de bom, no entanto proposto de tal maneira que não ameace a cultura local. Conversar sobre isso, sobre o dom de imaginar e fantasiar, e “autorizar” – talvez não “autorizar”, mas antes, permitir, catalizar, veicular, fornecer o cavalo para que surjam imaginações! Novas imagens, e diferentes desdobramentos do imaginário já dado, já posto, já vivido.
Pela minha experiência como formadora de professores da Educação Infantil, já tinha uma intuição sobre como os educadores acham que imaginar é algo ruim: algo que “tira a criança da realidade”, algo que pode incentivar mentiras ou devaneios que levam a criança para “outro lugar” que não a sala de aula estrito senso, lugar onde o professor quer que a criança se fixe. Também aqueles que misturam sua religião e profissão acham que imaginar leva a “coisas ruins”. É pena, e experieenciei, nas formações de professores, como é difícil retornar ao campo ficcional do faz de conta, por exemplo, depois que se cresce naquela lógica.
Imaginar, em sua positividade, é o que nos move aquém e além da vida ordinária, e é o que nos permite inúmeras formas de prazer na mesma vida ordinária! Imaginar é também uma capacidade humana irmã da memória e da subjetividade. Imaginamos o encontro com um amigo querido, imaginamos a felicidade de ganhar um presente de aniversário, imaginamos como seria o mundo sem nossa mãe por perto, ou com nossa mãe ressuscitada!; imaginamos que nossas ações poderiam ser diferentes; e se o mundo nos suportasse melhor?
Enfim, minha bandeira como artista professora será a bandeira invisível do teatro imaginativo, e meu mastro precisa ser a concretização de ações ricas em teatralidade: de modo que as crianças queiram muito imaginar a aula seguinte, para que, pela continuidade dos encontros, descubram todos os espaços possíveis que por aí estão, nas nuvens, para serem encontrados.








