Marina Marcondes Machado

Sobre o não saber

28 de agosto de 2016 Deixe um comentário
Por agachamento

O curso encarnado no corpo

atitude fenomenológica

Neste semestre estou novamente lecionando minha disciplina na pós-graduação da Escola de Belas Artes – na linha das “Artes da cena”. A disciplina tem um nome enorme, mas seu apelido é “Poéticas próprias”. Ela é feita de dez encontros de três horas, nos quais os alunos são convidados a olhar pela janela da Fenomenologia… a entrar pela porta da pesquisa autobiográfica, que se torna texto autoral, gesto e palavra, para habitar.

Aprendi com o professor John Dawsey, da Antropologia da USP, que podemos discutir textos teóricos noutra chave: na chave do performar, na chave do corpo encarnado, amassado, manchado pelas ideias, nexos e incertezas dos teóricos estudados.

No caso da disciplina, o modo do corpo encarnado apresenta / presentifica, em folhas de papel, a narrativa vivida pelo aluno durante as semanas: cada um será avaliado pelo seu diário de bordo das tardes das sextas-feiras.

permitir-se ser no escuro

Interessante ver como isso “afligiu” muitos dos alunos, e os fez ficar tal qual “bons alunos” na busca de cumprir corretamente a tarefa… No entanto o caminho mais próximo, e mais apropriado,  é sair tateando um caminho ainda incerto, talvez no escuro… Já disse por aqui, em postagem anterior, que a Fenomenologia é um jardim japonês. Reafirmo isso. O olhar fenomenológico é  simples, por buscar a volta às coisas mesmas, e, nessa busca, procurar pelo que Merleau-Ponty chama de “o mistério do mundo”. Para conectar nisso precisamos de um tipo de temporalidade que não faz muito parte da nossa vida cotidiana… um tempo dilatado, que nos permite escutar, observar, meditar sobre o fenômeno estudado. Novamente: seria simples, se não fosse complexo, quando implica numa atitude generosa e pacienciosa. Não vale sobrevoo: é mergulho na cotidianeidade, convívio e comiseração – palavra cujo oposto é a indiferença. Dá trabalho. É trabalho. Requer disponibilidade e abertura para o novo.

 

Silêncio

15 de agosto de 2016 1 Comentário
Por agachamento

Almodovar se supera

No filme Julieta – que descobri, dando googles, que originalmente se chamaria Silêncio – Almodovar nos presenteia com um filme que reune tudo de bom de sua obra: imagem, humor, sensibilidade, ironia, condição humana e de gênero… em doses pequenas, mas talvez letais. Uma homeopatia com fundo psicanalítico. Considero este filme “cem lições de psicanálise”!

atmosfera do filme

Fui assistir ontem pela segunda vez. Já sabendo da trama, e seus desdobramentos, pude sorver todas as almodovarices… que se iniciam já na abertura: o vestido vermelho da heroína nas cenas iniciais e sua casa deslumbrante, onde há um relógio gigante em uma das paredes.

Almodovar escreveu o roteiro baseado em três contos de Alice Munro (escritora canadense que ganhou o Nobel de Literatura) e dirigiu; o trabalho com as duas atrizes que fazem Julieta jovem e Julieta madura, e também com as atrizes coadjuvantes é muito bonito e sutil.

um deus humano

A ausência de conversas entre as personagens em momentos drásticos de suas vidas é a tônica do filme, algo que dá amplitude aos conflitos e põe o filme num pano de fundo de grandes tristeza e melancolia; paradoxalmente a fotografia é tão bonita que nos vemos diante de sensações estranhas, ou ainda, a trama por sua angústia e atmosfera de luto nos convida a ver a vida (das personagens, mas a nossa também) esvaziada de sentido, e nos vemos não admirando os lugares admiráveis, penso que num recurso de distanciamento maravilhosa e invisivelmente construído pelo demiurgo Almodovar.

Vale muito a pena conferir!

Um detalhe imenso: o modo como a filha arruma a mãe doente, tirando-a do leito. Um flash (dado em uma cena bem curtinha) que para mim resume as essencialidades almodovarianas, e o que eu chamei de doses homeopáticas… de psicanálise, e de humanidade.

Julieta, a filha aos dois anos e a mãe

 

 

Dois novos textos on line

6 de agosto de 2016 Deixe um comentário
Por agachamento

Entre final de julho e início de agosto dois textos meus foram publicados: um em parceria com meu ex-aluno e orientando de TCC Francisco de Assis Aguiar (o Chicó!) e outro em parceria com o amigo e colega de trabalho Ricardo de Carvalho Figueiredo, que organizou o Dossiê “Teatro e Educação Infantil: Entre a formação e a prática”.

O texto com Chicó foi feito durante o último semestre dele na Universidade, mas demorou para ser publicado; então,  revimos nossos papéis: trabalhamos no texto novamente de modo retrospectivo, ele com dizeres de jovem professor de teatro recém-formado (e não mais como “aluno da graduação”!). O texto é um diálogo entre nós, uma entrevista forjada (uma etnoficção? rs), por assim dizer: forjada por tratar-se de um estilo de escrita, dialogia na forma de perguntas e respostas, que procuram se costurar, coser, bordar…. Gosto do título: Ensinar e aprender como estado de procura: diálogos aluno-professor na Licenciatura em Teatro da UFMG. “Estado de procura” é uma expressão criada pelo Chicó, para designar um modo de pesquisar as poéticas próprias.

quem quer morar na ilha da performance?

O texto para o Dossiê sintetiza uma auto-reflexão sobre como me encontrei com a imagética dos mapas, inicialmente sem perceber muito uma conexão ou fluxo de continuidade, mas que anos depois [agora] visualizo com clareza. O título brinca com um comando ao leitor: Mapeie-se! Trabalhar com mapas, como venho dizendo, é um jeito criativo de usar ideias, conceitos, pensamentos e sentimentos transformados em rabiscos, garatujas, esboços: work-in-progress enfim/sem fim. Espero que os leitores do Agachamento possam fruir dessas leituras e também conversar comigo, indicar os artigos para outras pessoas, embebidos no uso criativo e ético de tudo isso como referência para pesquisa e ação. Saravá!

 

55

4 de agosto de 2016 Deixe um comentário
Por agachamento

 

“viver para que e por que? porque sim. por fidelidade à tolice de existir.”


Conheçam o SPA / Evento dos alunos da pós-graduação ECA-USP

23 de julho de 2016 Deixe um comentário
Por agachamento

Vou a São Paulo de férias; mas São Paulo clama por trabalho, então, por alguns períodos dentro das férias, vou trabalhar; vou a um evento acadêmico muito interessante, chamado SPA. É algo que acontece desde 2010 e é organizado pelos alunos da pós-graduação em Artes Cênicas da USP. É deles a Revista aSPAs, pela qual também tenho a maior simpatia e onde já publiquei um texto. A diferença que percebo aqui é uma espécie de autogestão e democratização dos espaços do conhecimento do nosso campo; por exemplo: a revista aceita relatos de pesquisa em andamento – ou seja, textos no modo work-in-process. Isso é muito contemporâneo e alivia nossas dores de positivismo (desconforto que sentimos quando obrigados a operar tal qual os cientistas duros).

Vou falar por curtos dez minutos na manhã do dia 27 de julho. Durante a manhã dessa quarta-feira haverão onze comunicações de grupos de pesquisa em Artes Cênicas. Apresentarei o AGACHO / Laboratório de pedagogias teatrais, núcleo ainda recém-nascido, no qual, por enquanto, reúno meus orientandos semanalmente e faço um encontro ampliado, uma vez por semestre.

brinca comigo?!

É um desfio preparar-se para falar dez minutos. Inventei um “roteiro de improviso”. Vou apresentar cinco jeitos de fazer mapas — modalidades, por assim dizer. São elas: mapa-fichamento; mapa-interpretativo de uma experiência; mapa-síntese icônica de um conceito; mapa-que é; mapa-sem mapa. O sexto jeito será apresentado pela minha orientanda Luciana Cezário: o mapa-de pesquisa em processo.

O sétimo jeito é o seu, leitor! E o oitavo, o nono, o décimo…

 

 

Convite à escuta do mapeamento do Léo / parte 2

15 de julho de 2016 Deixe um comentário
Por agachamento

parte 2

Além do aprendizado e das reflexões, Léo leva da disciplina um mapa. Um mapa que não é de pirata, mas leva a um grande tesouro. Léo precisa desse mapa para encontrar o seu conhecimento e desenvolver o seu professor de teatro. O mapa é parecido com o mapa do Brasil, mas qualquer semelhança é mera coincidência, ou não. Léo se compara com o país e dentro dele esta tudo o que ele precisa encontrar. Assim como o Brasil, o mapa de Léo tem 5 Regiões principais: Norte da Vida, Etnografar, Antiestrutura, Entretecer e Work-in-process.

o brasil do léo

O Norte da Vida é, no momento, a região que mais ocupa espaço no território interno de Léo. Ele precisa passar por essa região e se encontrar por ali, descobrir cada centímetro dela, ver o que ela tem pra oferecer e o que pode ser exportado e como essa região pode diminuir o seu espaço dando a oportunidade para outras regiões crescerem.
Etnografar é a região que Léo mais quer conhecer. Assim como a região nordeste do Brasil, a região nordeste do mapa de Léo é cheia de conhecimentos, ele precisa ser turista, conversar, observar e registrar. Um álbum completo de registros de suas conduções, de experiências com o outro, de aprendizagem com as pessoas e de pesquisa. Léo entende que a esta é região que ele mais tem potencial para se desenvolver.
A região centro-oeste do Brasil estimulou Léo a pensar na sua região Antiestrutura.  Quando a capital do Brasil deixou o grande eixo do sudeste para se instalar no centro oeste, foi quebrada uma estrutura, uma quebra que possibilitou uma expansão do desenvolvimento. Léo quer levar esse exemplo para sua vida. Uma quebra de estrutura pode ser o inicio de um grande desenvolvimento. Se permitir experimentar e permitir que seus futuros alunos experimentem é o que Léo quer descobrir e viver nesta região.
A região Entretecer é a mais difícil para Léo. Assim como a região sudeste do Brasil, entretecer é a mais povoada, aquela que precisa de mais contato com as outras pessoas, o fazer junto, o crescer junto.  Léo gosta desta região, mas ainda tem limitações que precisa trabalhar.
Work-in-process, é onde Léo quer se encontrar. A vida é um processo em andamento e não adianta querer cobrar resultados imediatos. Cada dia é uma grande apresentação, o aqui e o agora são tão importantes quanto a apresentação da peça de fim de ano dos alunos. Léo quer achar esse tesouro no mapa. O tesouro de valorizar cada momento do processo e não apenas o resultado final.
O mapa leva a um grande tesouro, mas ainda é necessário aprofundar em cada região. Os estados, cidades, regionais, bairros e ruas, ainda têm muito pra ensinar Léo. A caminhada por esses territórios é longa e demorada, cheia de obstáculos, mas o mapa mostra o caminho, basta segui-lo e prestar atenção por onde anda.

Léo de Castro

FIM

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