Marina Marcondes Machado

Um evento dos mais importantes

19 de setembro de 2016 1 Comentário
Por agachamento

um dos autores é meu filho

No próximo sábado será lançado o livro “Escolas de Luta”, editado pela Editora Veneta e de autoria de Antonia Campos, Jonas Medeiros e Márcio Ribeiro, no Instituto Pólis em São Paulo. Em novembro haverá lançamento em Belo Horizonte, vou divulgar aqui quando a data chegar. A ocupação das escolas no estado de São Paulo em 2015 foi um fato importantíssimo no cenário político brasileiro. Secundaristas mostraram-se protagonistas de si, de suas vidas, de suas escolhas; aconteceram inúmeros “fatos novos” nos modos de fazer política, que incomodaram tanto “os adultos”, que o governador mandou a polícia ser impiedosa e as mídias oficiais não admitiram a pertinência dos eventos, boicotando a divulgação, tomando partido, minorizando os fatos… Os três autores deste livro procuraram registrar o ponto de vista dos jovens mesmos, fatos que provavelmente se mostrarão, a médio e longo prazo, um marco nas novas formas de fazer política entre jovens no Brasil. Imperdível!

 

Resposta a Luênia ou “Eu já posso morrer”

16 de setembro de 2016 2 Comentários
Por agachamento

Estive publicando no Agachamento, em três partes, um texto-carta que foi escrito como relatório final de Iniciação Científica de Luênia, bolsista de Luciana Hartmann, na graduação em teatro da UnB. Eu não poderia nunca deixar de responder a ela! Segue então a resposta:

soltar os desejos

Luênia,

Compreendo bem sua comparação das escolas com prisões; sabemos que diferentes teóricos já estudaram e falaram sobre isso, e também vejo suas aflições nos corpos & mentes dos meus próprios alunos: estamos formando vocês com base em princípios humanos e poéticos, que nem sempre são bem vindos nos lugares que prendem desejos…

Como fazer?

Como exercer nossa profissão, e levar o teatro para aqueles que se interessarem por ele – e não a todos “por obrigatoriedade da lei”!??

Como trabalhar de modo que cada ser habite a morada do corpo, que as crianças conheçam suas fadas e bruxas, seus ‘lados B’, e possam, com riqueza, falar disso por meio de depoimentos, testemunhos, criações, jogos, brincadeiras e teatralidades?

Percebo com clareza que meus alunos, mesmo os mais novinhos, acham, por vezes, que sou… “viajante”, criatura de outro planeta, idealista, enfim,  há muitos jeitos de reagir a meus dizeres; um dos principais desses dizeres é:

o objetivo central da aula de teatro é ser feliz.

Me olham de um jeito atravessado, ou então com comiseração; talvez porque não viveram, eles mesmos (como eu vivi, e muitos da minha geração) o fazer teatral como felicidade. Então, essa é a minha linha! Meu método! Minha possibilidade mais possível: ser docente na Licenciatura em Teatro de modo a formar professores felizes em sua profissão e que levem esse tipo de felicidade para crianças e jovens, Brasil afora.

Sei que temos problemas, lacunas, questões graves no ensino e na convivência escolar… mas acredito serem problemas da comunidade adulta, especialmente. E acredito também que o ensino do teatro pode dar conta de uma parte dos problemas, pois há falta de diálogo, e o teatro é dialógico, e também, é monólogo e é estética do absurdo (falar sem diálogos, sobre o nada, sobre o tédio, sobre a vontade de morrer). Outro problema grave são os salários para nosso campo de trabalho – e sobre isso, não podemos ficar parados, precisamos estar nos lugares das políticas públicas, lutando pela nossa dignidade, sempre.

Enfim, sua carta foi um dos presentes mais bonitos que recebi na minha vida adulta. É um presente por ser uma forma-conteúdo, um riquíssimo e original fichamento dos meus textos (rs) que tentam convidar, sempre, o leitor à sua “poética própria”. Foi o que você fez e exerceu. Quando coisas assim acontecem, eu penso, e penso feliz: Já posso morrer. Viverei de certo modo na Luênia. Obrigada!

 

Postagem a convite: carta da Luênia para mim / parte 3

13 de setembro de 2016 Deixe um comentário
Por agachamento

No final de agosto recebi um presente; um presente inusitado: o relatório final de uma aluna da UnB em Iniciação Científica, no campo das Artes Cênicas, era uma carta para mim! Fiquei muito feliz! E convidei sua autora, Luênia Guedes, orientanda da Luciana Hartmann, para publicar a carta aqui no Agachamento. Depois das postagens, divididas em três partes, vou publicar a resposta…

parte 3

Eu resolvi conversar com a Elyse sobre essas pelotas inquietas que estavam saltando na minha cabeça, nessa conversa ela me falou de metodologia do coração, nossa eu estou muito feliz de ter conhecido a Elyse, é muito bom quando a gente encontra que pensa parecido com a gente… Olha Marina, eu acho ela até parecida com você. Bom, mas antes que eu me perca quero voltar para a terça-feira. Nesse dia uma coisa extraordinária aconteceu com o tempo… o relógio estava girando louco, como se quatro dias durassem um dia, uma sensação de pressa, como se nada que você quisesse fazer coubesse dentro do tempo. Mas eu tentava driblar o tempo, adaptando os meus planos, claro que sem deixar de prestar atenção nos desejos – seria difícil demais não ouvi-los. Na verdade esse era um dos meus desafios, eu queria ouvi-los, eu podia perceber neles a vontade de pular, andar pelo espaço, enxergava a inquietude dos desejos, mas por algum motivo que eu ainda não consegui encontrar uma resposta para meus questionamentos. O lugar cercado causava alguma coisa que deixava a maioria dos desejos um tanto silenciados, mas não era um silencio só de voz, era um silencio de corpo inteiro. Eu queria reconhecer neles as formas de expressão dentro desse contexto. Lançar um olhar para a forma como os desejos (se) entendem, reconhecem e expressam e, a partir dessa reflexão, criar uma metodologia sensível, uma vivência artística comprometida com a experiência, seja ela expressa em gestos, corporeidades e/ou visualidades. Sem limitar a experiência no corpo. Pois cada corpo é um universo. Meu desejo nessa experiência era dar voz ao corpo, era abrir espaço para a expressão do sujeito-estudante, incentivar uma postura autônoma e exploratória nos educandos. Queria estimulá-los a pensar sobre si mesmos, sobre suas histórias, a valorizar seus saberes, transformando essa experiência investigatória em narrativas cênicas, usando a história e o cotidiano do estudante como fonte de expressão artística para, dessa forma, valorizar sua identidade e seus símbolos. Oportunizando aos estudantes uma possibilidade de criar narrativas sobre sua história. Transformando seu cotidiano em produtos artísticos e incentivando a valorização da expressão do estudante como arte.

A pedagogia do teatro, tal qual eu havia me apropriado, uma pedagogia sensível e híbrida, viva e enxertada pelas minhas experiências de vida – como estudante, artista, professora e pessoa -, se apresentava, mais que nunca, uma possibilidade de expressão artística imbricada com as histórias dos sujeitos, uma oportunidade de ser e estar: corpo indivíduo que manifesta sua poética e, também, ser e estar corpo político que se identifica enquanto grupo, se vê nos conflitos do outro, se percebe um corpo maior que não vaga sozinho. Que na união do grupo pode produzir arte e expressão legítima de um desejo. Estou certa de que a contação de historias dentro desse contexto, abre caminho para uma experimentação cênica no corpo. As possibilidades cênicas propostas por  mim nesse processo se apresentaram como um caminho sensível para o “despertar” de um corpo acostumado com as cadeiras imóveis das pequenas e super lotadas salas de aula. Abrindo caminho para uma relação com o corpo como espaço cênico de expressão.

ESPERO QUE UM DIA O LUGAR CERCADO DEIXE DE SER A ESCOLA E QUE AS CRIANÇAS CONTINUEM SENDO DESEJOS

FIM

por Luênia Guedes

Postagem a convite: uma carta de Luênia para mim / parte 2

7 de setembro de 2016 1 Comentário
Por agachamento

No final de agosto recebi um presente; um presente inusitado: o relatório final de uma aluna da UnB em Iniciação Científica, no campo das Artes Cênicas, era uma carta para mim! Fiquei muito feliz! E convidei sua autora, Luênia Guedes, orientanda da Luciana Hartmann, para publicar a carta aqui no Agachamento. Depois das postagens, divididas em três partes, vou publicar a resposta…

parte 2

Eram 29 desejos e o conflito: silêncio x “barulho”, corpo quieto x corpo atento. Eu podia me reencontrar naquela sala enquanto desejo, eu podia revisitar meu passado e lembrar que eu também já estive num lugar parecido como aquele, me lembro bem da tal necessidade imposta de permanecer calado e sentado-sedado, quieto em uma cadeira. Agora quando entro nessa sala numa outra condição, quero fazer diferente, por mim e por eles, quero ouvir, quero que se movimentem, quero acolher a inquietude e quero questionar isso enquanto docente também. – Oi meu nome é Luênia, sou estudante de artes cênicas e vim aqui pra gente fazer algumas experiências cênicas, contar e ouvir histórias. Mas antes de começar quero saber se alguém tem alguma pergunta pra me fazer? Algum comentário? Eu não queria empurrar nada guela abaixo, todo desejo merece ser ouvido. Eles tinham perguntas: - você é brasileira? Você é desse planeta? Quem é sua mãe? Quanto tempo você vai ficar aqui?

Começo por estabelecer um código de atenção com a turma, esse código eu aprendi com uma amiga-professora que se chama Wanuza, consiste em levantar a mão e quem estiver atento também levanta a mão, e assim vai se tornando um contágio de atenção. O silêncio é uma consequência. Eu apresentei o código de forma brincante, como um jogo fui criando a relação, uma linguagem para que eles pudessem entender por outros sentidos, sem que eu precisasse somente falar. Depois que eles entraram no jogo eu firmei esse primeiro código e enfatizei que esse código seria uma oportunidade de guiar a nossa atenção, um ouvir com o corpo todo.

Eu os convidei para um círculo, automaticamente eles se sentam no chão. Sentar parece ser uma prerrogativa de silencio e bom comportamento. Regras que o lugar cercado reforçam a todo momento. Eu peço para que fiquem de pé e explico o jogo “poema do eu”: cada um fala sua cor preferida, numa segunda rodada sua comida preferida, na terceira rodada um objeto imaginário – antes da  terceira rodada percebo seus corpinhos inquietos, ansiosos. Poderia ser a tentadora posição de se estar de pé e ter um mundo de possibilidades sem que se possa explorá-las. Diante da situação eu proponho uma imagem para eles, a imagem de um ninja. Pergunto se eles conhecem a figura do ninja, eles me descrevem em detalhes, vejo o desejo deles em compartilhar o que sabem sobre o assunto… – Nossa! parece que o tempo não será suficiente. Não deixo essa preocupação me afetar pois o mais importante desse encontro era que nos conhecêssemos e criássemos esse vínculo. Apresentado o ninja, peço que eles tentem agir como um ninja durante esse exercício e solicito que na rodada seguinte cada um fale seu nome e faça uma pose/gesto de ninja. Eles se sentem muito estimulados com a imagem do ninja.

Aproveito o ninja para o próximo momento do nosso encontro. Como eles tinham muita energia, propus uma caminhada pelo espaço, começamos lentamente (ou pelo menos tentamos) e depois evoluímos para uma caminha mais rápida. Ao final do exercício de caminhar pelo espaço peço para que eles fechem os olhos, para que percebam seu corpo, uso a figura do ninja novamente e faço uma analogia onde o ninja que quer fazer golpes e saltar estar dentro no corpinho deles e que naquele momento a gente ia segurar o ninja um pouco, não íamos deixá-lo fugir. Enquanto eu falava do ninja e do corpo eu ascendia uma luminária com uma vela e colocava um cocar no meu pescoço, como uma espécie de colar. E como se estivéssemos todos em volta de uma fogueira eu começo a historia de como se compartilham histórias nas aldeias mundurukus, naquele momento eu era uma menina indígena que compartilhava histórias de como ouvir e contar histórias, em volta de uma fogueira as crianças contam suas aventuras na floresta, os mais velhos escutam e aprendem com os menores, as mães catam piolhos na cabeça dos pequenos, ensinam e contam.

Durante a história todos conectados comigo, atentos. Queriam saber  se essas histórias eram todas minhas, ao final eu olhava para seus olhinhos, o corpo que se movia e reagia curioso. Olhava aquilo e queria acreditar que ali o corpo se tornava um “lugar” em potencial para expressão do sujeito. Sendo o corpo-estudante sua expressão enquanto sujeito no lugar cercado: poético, político e artístico. Era essa expressão do sujeito e a relação do corpo-estudante naquele contexto que me pungia os olhos, era sobre esses desejos de histórias latentes que eu queria observar, interferir e compartilhar. Uma experiência que partia dos desejos silenciados no lugar cercado, para uma investigação e um experimento que fomentava o corpo-estudante como território de expressão do sujeito.

FIM DA PARTE 2 / A SER CONTINUADO

Postagem a convite: uma carta de Luênia para mim / parte 1

3 de setembro de 2016 Deixe um comentário
Por agachamento

No final de agosto recebi um presente; um presente inusitado: o relatório final de uma aluna da UnB em Iniciação Científica, no campo das Artes Cênicas, era uma carta para mim! Fiquei muito feliz! E convidei sua autora, Luênia Guedes, orientanda da Luciana Hartmann, para publicar a carta aqui no Agachamento. Depois das postagens, divididas em três partes, vou publicar a resposta…

parte 1

Cara Marina,

Preciso te contar uma coisa que aconteceu comigo, foi numa terça-feira nublada de maio, num desses dias que você pensa que nada diferente pode acontecer, era para ser mais um dia normal, mas aconteceu que nesse dia eu encontrei 29 desejos. Eu me sentia um pouco diferente naquele dia, era como se eu estivesse do avesso, sensível ao universo ao meu redor. Meus ouvidos pareciam mais atentos e minha pele funcionava como sensores de um polvo estranho, era como se todo meu corpo fosse olhos, ouvidos e boca. Corpo coberto por papilas gustativas-auditivas, sentindo sabores nos sons e nas vozes escutadas. Uma espécie de massa sensível me cobria e fazia de mim um ser estranhamente diferente. Um dos sintomas dessa minha nova não-forma eram algumas questões na minha cabeça falante, perguntas soltas sobre crianças, histórias e desejos: o que acontece com as histórias que não são contadas? O que acontece com corpo que não fala suas histórias? pensei – será que a história que não é contada sai vagando por aí procurando uma boca que possa contar, uma perna pra levar, um corpo pra acontecer…. será que cada corpo que não diz se endurece um pouquinho como quem vai se transformando em estátua?

Marina, antes de te dizer o que aconteceu comigo, é necessário esclarecer que para tentar  transpor essa experiência em palavras táteis, precisei inventar algumas outras, em outros momentos tive que buscar palavras grandes e rebuscadas que já existem. Não poderia deixar de fora dessa partilha, também, as histórias contadas por outras pessoas. Talvez você nunca tenha lido uma carta assim, pode ser diferente do que você costuma ouvir e ler, espero que você entenda, nem considero que entender seja meu objetivo, eu realmente espero que você sinta. Que você possa se transportar para essa história fabulosa que aconteceu comigo, que seja uma experiência de sensorialidade, assim como foi pra mim, uma vivência de ouvir e de contar histórias. Estarei atenta na escolha de minhas palavras para que elas atuem como formas, desenhos, sons, numa expectativa que durante esse momento de leitura elas escapem da tela ou papel e toquem sutilmente o seu corpo. Que meus pensamentos loucos ou poéticos cheguem até você transfigurados em poesia tátil.

Minha cabeça pensava, falava, perguntava.

Comecei a busca pelas respostas. O primeiro lugar que eu procurei foi em outras pessoas, em cada um que eu percebia o interesse pelas histórias eu tentava descobrir, e essa troca de conversas e escuta de histórias alimentava pouco a pouco a fome da cabeça pensante. A cabeça que também era corpo corria inquieta e buscava respostas em outros lugares como, livrarias, salas, escolas, e foi aí que eu te encontrei, em um não-lugar cibernético, na nuvem virtual do nosso mundo… sim, esse magnífico e perigoso lugar onde se pode ser onipresente, a internet.

Nessa mesma nuvem eu acabei topando com outras pessoas que pensavam parecido comigo, uma delas foi a Elyse. A primeira coisa que me impressionou na Elyse Pineau era a forma que ela falava, uma escrita performática, de forma bem livre e sensível ela revelava suas experiências com a educação libertadora com muita vivacidade, isso me deixava mais confortável em também falar (ou até mesmo te contar essa história) de forma livre e afetiva, e deixar a poesia das histórias permearem essa carta que te escrevo.

No dia que eu encontrei os 29 desejos eu sabia que era um dia diferente, eu os encontrei em um lugar muito diferente… eu não me lembro muito bem como fui parar lá, provavelmente uma dessas coisas velozes que vida inventou de um-que- fala-pra-outro-que-fala-pra-um… volta aqui pensamento que quer voar, eu amo essa coisa de voar e inventar …. o lugar era mesmo exótico, primeiro porque tinha muros, grades, eu não entendia porque um lugar com desejos tão interessantes precisava ter grades e ainda como aquelas – estreita, ângulos pequenos, enferrujada – uma grade daquela deixava qualquer um do outro lado realmente assustador. O lugar cercado também tinha outras coisas singulares, todos os desejos que entravam lá precisavam ficar bem quietinhos, sim!

Era de manhã bem cedinho e os desejos já estavam acordados – logo os desejos que precisam dormir muito que é pra crescerem mais – todos em fila, e uma pessoa falava no microfone, provavelmente a diretora, dizia que os desejos deviam ouvir mais e falar menos, as pessoas daquele lugar também tinham outros comportamentos bem intrigantes… eles queriam que os desejos ficassem divididos por sua semelhança – talvez esse seja o interesse do lugar cercado: fazer com que os desejos sejam semelhantes, mas desejo que é desejo é sempre diferente – era muito importante manter e fazer filas. Depois desse momento os desejos se encaminhavam comedidamente guiados por uma professora até um pequeno espaço dentro do lugar cercado, esse lugar é comumente chamado de sala de aula.

Quando eu cheguei lá eu queria manter meus olhos e ouvidos muito atentos na tentativa de descobrir o que o corpo deles queriam dizer, mas eu podia notar um certo enrijecimento em seus corpos, contidos pelas regras, padrões, mais até do que pelas cercas e muros. Eu estava à procura de desejos silenciados, de histórias não compartilhadas. Procurava naqueles pavilhões de concreto pequenas expressões perdidas, dizeres presos sob tetos de zinco. Olho com cuidado, tento ouvir e ver a voz dos que passam de uma aula para outra. Assim que entramos na sala a professora direcionou cada um para seus devidos lugares, elegidos por ela. Depois que todos se sentaram ela os saudou com um booom diaaaa! Eles responderam em um uníssono hipotônico booom diaaaa! Logo a professora falou: – depois do bom dia a gente faz?? a turma completou falando todos juntos mais uma vez:  silênciooo. Para  mim  era  quase  inacreditável  ouvir  essa  saudação,  eu procurando histórias e o lugar cercado almejando sempre o silêncio. Eu olhava para aqueles desejos e enxerava poesias saltitantes, cores, texturas, histórias em pleno movimento. Logo quando eles perceberam minha presença – os desejos que normalmente são muito curiosos – começaram a investigar minha história, minha cara, minha família. Adoro encontrar desejos curiosos! Logo entre nós pairavam uma energia amistosa, a sensação boa da surpresa do primeiro encontro. Se estabelecia uma relação de troca e partilha, antes de eu começar a propor nossa vivência um desejo se aproxima de mim e me pergunta baixinho: a gente vai fazer uma leitura? Eu respondi que não e perguntei porque. Ele me responde com outra pergunta: – Mas a gente vai poder falar? É porque a gente nunca fala alto. Naquele momento eu percebi que independente do espaço concreto que estivesse ao nosso redor nós já tínhamos nossos corpos como foco principal dessa experiência, tínhamos o “quem” como espaço cênico. Como você faz a reflexão sobre Merleau-Ponty quando aponta que a criança experiencia o corpo não a partir da espacialidade de posição (sem partir de um “onde”), mas antes concebe a corporalidade como “uma espacialidade de situação” – partindo, então, de um “quem” e seu contorno/entorno desenhado em gesto e palavra.

FIM DA PARTE 1 / A SER CONTINUADO

31 de agosto de 2016

31 de agosto de 2016 Deixe um comentário
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